Powered By Blogger

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A lógica da cegueira

O livro “Ensaio sobre a cegueira” do escritor português José Saramago e recentemente levado às telas pelo diretor brasileiro, Fernando Meirelles, é uma metáfora extremamente lúcida da incapacidade humana em construir laços de solidariedade, mesmo diante de uma tragédia comum. Saramago relata com bastante sensibilidade como as pulsões mais instintivas e/ou bárbaras corroem uma sociedade pautada no desprezo à vida e ao seu semelhante. Uma explosão anômica sem precedentes, que não escolhe grupo social, gênero ou etnia.

A lógica da “cegueira humana” se configura, nesta direção, na incompreensão coletiva de como se engendram todas as formas de exploração de homens, mulheres e crianças; o porquê de existir tanta desigualdade social e concentração de renda; e a naturalização da violência em suas dimensões física e simbólica. É esta mesma cegueira que inviabiliza lutas sociais mais consistentes; que lança à margem àqueles/as que nunca terão acesso ao processo de escolarização e, que por esta mesma razão, correm o risco de serem inempregáveis e mais propensos à indigência.

Contraditoriamente, combatemos exaustivamente nossos pares. Plantamos e semeamos a discórdia e nos vangloriamos de representarmos lideranças desagregadoras. Sabotamos projetos alheios e nos aliamos a determinadas concepções políticas que favorecem a acumulação do capital privado à custa da produção coletiva pública. Nossos interesses se definem tão-somente naquilo que é mais imediato e, portanto, totalmente descolado dos nexos históricos que medeiam nossas relações laboriais e afetivas. 

Uma sociedade sitiada pela cegueira metafórica é promotora de todos os desmandos nas áreas política, econômica e cultural; não por acaso, o mundo está em crise pela arrogância dos ‘mercadores de almas’, que decidem quem poderá comer hoje e amanhã. Os danos são irreparáveis e inconsequentes. E enquanto isso os/as cegos/as marcham incólumes, embrutecidos, esperando, quem sabe, uma redenção metafísica atemporal, a-histórica, desprovida de toda e qualquer materialidade.  


sexta-feira, 18 de junho de 2010

O AMOR SEGUNDO OS FILOSÓFOS

Autor: Matheus Arcaro



(fonte no final da postagem)

Que o amor é inexplicável, todos em idade adulta já desconfiam. Mas para tentar compreender um bocadinho esse sentimento deveras arrebatador e indecifrável, recorro a alguns filósofos, pessoas que nasceram para pensar a respeito das coisas difíceis da nossa vida.



Pesquisando, descobri que existe um livro chamado “O amor segundo os filósofos”, do professor Maurizio Schoepflin. Pois é, o livro aborda a visão de nada mais na menos do que 19 filósofos sobre o que é o amor. Confira a de alguns e responda: para você, qual definição faz mais sentido?



Na concepção do filósofo Ateniense Platão (o amor ao bem e à beleza) o amor liberta o ser humano e o leva à verdade. Assim, o amor platônico lança uma ponte entre o universo sensível e o universo puramente inteligível, entre o corpóreo e o espiritual, entre o relativo e o Absoluto.



Já o filósofo egípcio Plotino (O amor é desejo inesgotável), diz que o amor purifica e eleva o ser humano. Produz efeitos catárticos de importância fundamental, sem os quais o caminho da conversão e do retorno fica fechado para a alma.



No pensamento de Santo Agostinho (o amor é tudo) o amor é o nexo que une as Pessoas divinas. Somente o amor é capaz de explicar a vida da alma e a sua possibilidade de se elevar ao conhecimento unitivo de Deus.



Segundo Boaventura de Bagnoregio (o amor é a verdadeira sabedoria), a força que dá ao ser humano a capacidade de elevar-se a Deus é o amor. Muitos mais que o esforço intelectual, é o amor que torna possível uma verdadeira aproximação a Deus.



O amor constitui a essência central da própria vida de Deus. Quando amamos, afirma Tomás de Aquino (amar a Deus para amar o próximo), amamos a Deus.



Na filosofia de Baruch Spinoza (o amor é intelectual e gera alegria) o amor é o pleno conhecimento da verdade que faz o ser humano totalmente feliz.



Para Jean-Jacques Rousseau, (o amor não admite corações) o amor é filho da natureza e da liberdade. Para ele, o ser humano nasce bom e se perverte por causa da vida social e do desenvolvimento cultural.



Para o filósofo alemão Friedrich Schleiermacher (o sentido sagrado do amor) o amor une o finito ao infinito. O amor, interpretado segundo uma perspectiva religiosa e sacralizante, torna-se o centro da gravidade que atrai e unifica não só a própria religião e arte, mas também a educação e a moralidade.



O pensamento de Arthur Schopenhauer (o amor desejo e o amor compaixão) é marcado por um profundo pessimismo, baseado da convicção de que o único motor de toda a realidade é uma vontade cega, absurda e irracional de viver que impulsiona todo o universo e cada ser vivo a desejar algo que, tãol ogo é obtido, torna-se motivo de insatisfação. Assim o amor é poderoso e sabe enganar o ser humano, consegue iludi-lo, prometendo-lhe felicidade que jamais poderá se realizar.







.....................................



Sinopse do livro “O amor segundo os filósofos”:

Contradições, luzes e sombras, mas sobretudo potência, esperança e vida; é o amor, o sentimento que dá forma e alma ao mundo, e que ao longo dos séculos inspirou os pensamentos e as obras dos homens, desde a arte até os domínios da espiritualidade, da ciência e da poesia. Nem mesmo a filosofia - disciplina rainha do pensamento - conseguiu escapar ao fascínio arcano deste sentimento, quer ressaltando o seu valor positivo e exclusivamente humano, quer lendo nele a expressão inefável da transcendência, ou também vendo-o como realidade ilusória ou como meta inalcançável. As diversas teorias sobre o amor vieram construindo ao longo do tempo um mosaico de extraordinária beleza, para o qual a presente antologia de textos filosóficos de cada época contribui ao recompor suas inúmeras peças.





.....................................



Adendo:



O amor. Por Nietzsche e Shakespeare

Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.

Friedrich Nietzsche



O amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são.

Friedrich Nietzsche



Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.

Friedrich Nietzsche



O verdadeiro nome do amor é cativeiro .

William Shakespeare



O amor é como a criança: deseja tudo o que vê .

William Shakespeare



É muito melhor viver sem felicidade do que sem amor.

William Shakespeare

EDUCAÇÃO À DERIVA

Jéferson Dantas *






Agressões em sala de aula, crianças e jovens vítimas do bullying eletrônico; ameaças sistemáticas envolvendo diferentes grupos de jovens, identificados pelas suas opções musicais, roupas, adereços, cabelos e espaços sociais compartilhados. Há muito as escolas públicas, notadamente (mas não só), têm se tornado o local privilegiado do ‘acerto de contas’, que ocorrem à revelia dos/as que estão à frente do processo educacional. E isso tem acontecido, frequentemente, com adolescentes do sexo feminino, numa demonstração de força e sustentação de liderança até então mais visivelmente associado aos rapazes. Os motivos das agressões, muitas vezes, são fúteis e torpes, como o que ocorreu recentemente numa escola estadual de Joinville. No filme-documentário do diretor João Jardim (Pro dia nascer feliz, 2007), esta realidade está bastante patente nas escolas públicas de periferia, tendo em vista que estes/as jovens estão mergulhados em contextos estruturais de violência e impossíveis de serem atendidos pelos mecanismos (pífios) de inclusão social da escola.



Contudo, a relação quase esquizofrênica envolvendo escolas e o aparato tecnoburocrático educacional, demonstra a sua total ineficácia e o jogo do ‘empurra-empurra’ no que concerne à responsabilização das demandas trazidas por esta juventude cada vez mais indiferente à escola. As gerências educacionais maximizam dinâmicas de controle em relação à obediência do calendário escolar, interpretando unilateralmente leis educacionais e retirando a autonomia das unidades de ensino quando a questão é centralmente pedagógica; mas, quando as evidências são de cunho estrutural, o Estado culpabiliza as escolas, enfatizando que as mesmas têm ‘autonomia’ para solucionar os problemas associados à violência.



Ora, se fizermos um mapeamento minucioso nas escolas públicas e privadas, provavelmente encontraremos centenas de relatos de violência envolvendo estudantes contra estudantes, educadores contra estudantes e vice-versa; além disso, as mínimas condições de trabalho não são respeitadas (banheiros estragados e fechados, preparo da merenda escolar sem condições de higiene, falta de água potável, tetos prestes a desabar na cabeça de estudantes e educadores, inexistência de áreas de recreação, etc.). Enfim, uma arquitetura escolar que oprime mais do que educa.



A relação ‘autista’ que as escolas têm com o aparato tecnoburocrático educacional produz, em última instância, o não diálogo e culpabilizações recíprocas que não equacionam questões emergentes, fazendo com que a Educação fique cada vez mais à deriva.





_______________________

* Professor universitário e Doutorando em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E-mail: clioinsone@gmail.com. Consultor e articulador pedagógico na comissão de educação do Fórum do Maciço do Morro da Cruz (CE/FMMC).

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A DIVERSIDADE DAS APTIDÕES

Posted: 20 May 2010 08:49 AM PDT




“Sabemos que vivemos em um mundo globalizado onde a competência significa ser útil no papel em que desenvolve, ou dotado de outras habilidades além das que tem?”

A diferença entre as capacidades naturais dos diversos homens é, na realidade, muito menor do que aquilo que podemos pensar; e a grande disparidade entre os diversos talentos que parecem distinguir os homens das diversas profissões quando chegam à maturidade é normalmente muito menos uma causa do que um efeito da divisão do trabalho. Mais do que a natureza, parecem ser os hábitos e a educação que explicam a diferença existente entre os caracteres mais díspares, por exemplo, entre um filósofo e um carregador. Quando vieram ao mundo, e durante os primeiros seis ou oito anos da sua existência, eram talvez muito parecidos; nem os pais, nem os companheiros de brincadeira teriam podido notar grandes diferenças entre eles. Mas nessa idade, ou pouco depois, as crianças empregam-se em diferentes ocupações; começa-se então a notar uma diversificação dos respectivos talentos, que vai tomando incremento, até dar origem. Esta tendência, além de procurar uma notória diferença de talentos entre os homens das diversas profissões, também a torna útil. Por natureza, um filósofo não é tão diferente de um carregador em capacidade e aptidões. Os talentos mais díspares são úteis uns aos outros isto porque os diferentes produtos das suas respectivas aptidões, devidos à tendência geral para trocar e comprar passam a fazer parte de uma mesma reserva à qual os homens podem ir buscar tudo aquilo de que necessitam.



“Se não existisse em cada homem a tendência para a troca e para compra, este ver-se-ia obrigado a produzir todas as coisas necessárias e úteis para a sua vida. Todos teriam os mesmos deveres e realizariam o mesmo trabalho; nessa condições, nunca poderia existir a enorme diferença de ocupações que, por si só, dá origem à diversidade das aptidões”.





Thamário Everley Conrado Pereira é acadêmico de Direito, da Faculdade Alfredo Nasser e membro ativo do Pajupu (Programa de Assessoria Jurídica Popular Universitária)

Email: t.everley_stylenet@hotmail.com

sábado, 15 de maio de 2010

Somar - viver melhor.

Posted: 13 May 2010 12:48 PM PDT




A filosofia é sempre uma atividade perigosa, porque nos instiga a pensar.

"Pensar bem, para viver melhor", era desejo dos gregos. Para alcançar o real desenvolvimento humano, recomendavam a sabedoria, a coragem, a temperança e a justiça. Na Grécia Antiga competia-se em tudo, sobretudo no campo das idéias e dos destinos da cidade (polis), tendo em vista ser cidadão (capaz de governar e ser governado). Neste sentido, herdamos o desafio de formarmos seres humanos preparados para viver a vida e a cidadania.





Como viver? é uma das perguntas mais importantes a serem respondidas nos dias atuais. Se “é preciso saber viver”, as formas de construir nossa vida sempre passam ou pelo individualismo ou pela coletividade. A sabedoria de nosso poeta maior Gonzaguinha revela que aspiramos por humanidade, construída por várias e distintas mãos, e que somos marcados uns pelos outros. Disse o poeta: “e aprendi que se depende sempre, de tanta, muita, diferente gente. Toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas. E é tão bonito quando a gente entende que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá. E é tão bonito quando a gente entende que nunca está sozinho, por mais que pense estar”.





A tarefa de construir-se sujeito no mundo e sujeito do mundo não é uma responsabilidade reservada a cada um individualmente, mas enseja o modo de ser, pensar e agir no mundo, a partir da coletividade. Esta, por sua vez, deve permitir a construção de uma cidade justa, solidária, que contemple as nossas diferenças.





A maior riqueza da humanidade está nas diferenças culturais, que traduzem o modo de ser, pensar e agir de cada ser humano e de todos os povos. Reconhecer estas diferenças enriquece nosso conceito de humanidade. Somos diferentes nas potencialidades, nos modos de vida e nos pensamentos. As potencialidades humanas requerem reconhecimento social, seja pelos méritos pessoais ou méritos coletivos. Por isto que justiça não pode supor relações subalternas, mas o tratamento da igualdade a partir das diferenças.





Em 2010, ocorre a terceira Olimpíada Filosófica do Rio Grande do Sul, na PUC-RS, em Porto Alegre, com o tema É preciso saber viver? O que precisamos saber para cuidar da vida? Se ninguém pode dar aquilo que não tem, todos nós somamos talentos e possibilidades para tornar nossa vida a melhor possível, respeitando os limites da gente e os limites dos outros.





O formato das olimpíadas filosóficas pressupõe o diálogo sobre as possibilidades de uma vida mais justa, feita através da liberdade, e considerando a possibilidade da felicidade de todos e todas. As olimpíadas permitem transformar a rebeldia saudável dos jovens em atitudes cidadãs, a partir do conhecimento gerado pelo reconhecimento das idéias de todos. O convite que se faz aos jovens estudantes é que se superem a si mesmos, com novas formas de agir e pensar, num espírito de cooperação e amizade. Se a filosofia é arte de pensar, os jovens aproveitam suas idéias e seus pensamentos para conquistar novas amizades e novas percepções de vida e de mundo. A humanidade se faz em movimento, de pessoas e de idéias.











Nei Alberto Pies, professor e ativista em direitos humanos

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A INVENÇÃO DA VERDADE DENUNCIADA POR NIETZSCHE

Autor: Matheus Arcaro

(fonte no final do texto)



Verdade! A musa a ser conquistada pela Ciência, pela Filosofia e, porque não por nós, pessoas comuns que no dia a dia tomamos-na como parâmetro para as nossas decisões, para rumar o nosso pensamento.



Mas, a verdade é real? É engendrada? Como ela nasce, afinal?



Questões como estas impulsionaram o jovem Nietzsche em sua pesquisa que culminou no breve, porém rico ensaio intitulado “Sobre a mentira e a verdade no sentido extra-moral”.



Antes, contudo, de analisarmos esse problema cabe uma breve contextualização de sua filosofia: Nietzsche é um pensador de combates. Suas obras são grandes máquinas de guerra prontas a destruírem o edifício lógico-moral, sustentado pelo platonismo e sua vertente ordinária, o cristianismo. Sua obra é escrita com “sangue e máximas”, marcadamente assistemática. A primeira grande “contradoutrina” de Nietzsche surge na pretensão de se opor à “metafísica racional” e instaurar a “metafísica do artista” que concebe a Arte como a atividade libertadora do homem; apenas a arte possibilita uma experiência da vida em sua plenitude. A Arte é o outro lado, um solo “extra”, “para além” da tradição filosófica e suas facetas lógicas e morais. Afirma Nietzsche: “A arte é a única força superior contraposta a toda vontade de negação da vida”.

Com estas curtas pinceladas, podemos partir para o problema da verdade.

Nietzsche começa afirmando que o intelecto humano é totalmente sem finalidade e gratuito perante o todo, frente à natureza. “Se pudéssemos entender-nos com a mosca, perceberíamos que ela sente em si o centro voante deste mundo”. Acreditamos que, por nosso intelecto, somos seres superiores. Mas ele é apenas um meio de conservação do homem, ser mais fraco, menos robusto, ao qual que está vedada a luta pela existência com chifres ou presas. O indivíduo, para conservar-se, para existir socialmente, precisa usar o intelecto. Precisa de um acordo de paz para que a “guerra de todos contra todos” desapareça de seu mundo. Esse pacto é o primeiro passo para o impulso à verdade, que nada mais é do que um tratado de paz. Concebendo a verdade como possibilitadora da vida social, Nietzsche chega a um primeiro contraste entre verdade e mentira: o mentiroso usa as designações válidas, as palavras para fazer aparecer o não-efetivo como efetivo; ele diz, por exemplo: ‘sou rico’, quando para seu estado seria precisamente ‘pobre’ a designação correta.



O que caracteriza ainda mais a verdade como uma criação puramente humana são as conseqüências advindas tanto da verdade como da mentira. O que o homem odeia é ser prejudicado tanto por uma, quanto por outra. Se o resultado da mentira é benéfico, então a verdade, em oposição, não é desejada e, até mesmo, repelida.



Central no texto “sobre a mentira e a verdade no sentido extra-moral” é a contraposição entre Metáfora e Conceito. Conceito, segundo a tradição, é o que define a substância. É ele que possibilita a descrição, a classificação e a previsão dos objetos cognoscíveis. O conceito, de modo geral, é a essência necessária, pela qual não pode ser de modo diferente. Para Nietzsche, a metáfora é a imagem do próprio mundo. Conceituar é congelar; é reduzir as muitas possibilidades a um único significado. Por um ato arbitrário de persuasão, ou seja, pela linguagem, introduz-se uma das muitas possibilidades da “metaforicidade” do mundo. Por trás disso, está a vontade de conservação, ordenação e pacificação, que não são naturais do mundo.



“Todo conceito nasce da igualação do não igual. Uma folha nunca é igual outra folha e, no entanto, o conceito de folha abandona arbitrariamente essas diferenças, essas individualidades e desperta a representação da folha, uma espécie de folha primordial, segundo a qual todas as folhas são tecidas.

Dividimos as coisas por gêneros, designamos a árvore como feminina e o vegetal como masculino. Que transposições arbitrárias! Que preferências unilaterais ora por esta, ora por aquela propriedade do objeto.”



A verdade nada mais é do que um batalhão de metáforas, metonímias, antropomorfismos que, após um longo uso, parecem sólidas, canônicas, obrigatórias. As verdades são ilusões, são conceitos que se esqueceram da sua origem metafórica.










O homem, falando a verdade, mente da maneira designada, inconscientemente e segundo hábitos seculares. Justamente por esse esquecimento, chega ao sentimento de verdade.

Quem está contaminado pela frieza dos conceitos, dificilmente acreditará que até o conceito aparentemente mais verdadeiro, como ósseo, por exemplo, não passa de um resíduo metafórico.

Eis a imagem: a verdade é como alguém que encontra um tesouro atrás de um arbusto. Tesouro este que ele mesmo escondeu. Defino o camelo como animal mamífero e, depois de inspecionar um camelo declaro: Vejam, um animal mamífero! Informação antropomórfica sem um único resquício de verdade!



Criticando a verdade, Nietzsche nos mostra a decadência de uma sociedade cientificista. Esta confiança ignorante nos preceitos e valores científicos constitui-se na negação do que o homem possui de mais humano. E, por negar sua humanidade, Nietzsche diagnostica o homem moderno como doente, propondo a arte como um medicamento capaz de levar a cura.





Fonte: http://oqueinspira.blogspot.com